domingo, 24 de agosto de 2014

ZÉ DOIDINHO, O FILHO DE DUI DO CAMINHÃO

Ele ficou nas nossas lembranças alegres e tristes pois, devido a sua enfermidade, passava de um mundo pro outro num piscar de olhos. Primo em primeiro grau do jogador Clodoaldo, que jogou no Santos e na Seleção Brasileira de 1970 sendo campeão no México, na cidade de Guadalajara. Talvez tenha sido sua maior alegria quando o trouxeram ao jogo inaugural do estádio Lourival Baptista-Batistao ,entre a Seleção Brasileira x Seleção Sergipana. Zé Doidinho pode assim ser apresentado e conhecer o seu ídolo, primo e conterrâneo (ambos nasceram no povoado Gandu),o Clodoaldo! Zé Doidinho gostava de acompanhar as meninas do Murilo Braga ao saírem do colégio, no trajeto entre a praça do Hospital Rodrigues Dória,( com a ambulância sempre parada na porta, à espera de algum chamado quando Seu Borrachinha guiava velozmente no afã de salvar vidas), e por toda extensão da praça Santa Cruz hoje João Pessoa. Ao longe já o avistávamos com a sua corrida saltitante. Só chegava perto da gente aos tropelos e falava, fazia perguntas, com o cuspe juntando no canto da boca. Algumas vezes ele estava mais agitado que o de costume, mas, o máximo que fazia era levantar a saia de uma ou outra menina, e quando ameaçado por nós de bate-lo saía correndo de perto da turma. Nenhum incidente mais grave foi registrado que tivesse sido praticado por Zé Doidinho! Não podia ouvir falar em festas que logo se candidatava para estar presente. Adorava festas. Não perdia uma! Nos anos 70, quem viveu a adolescência nessa década, sabe que todo final de semana tinha festa na garagem de alguém. O Zé era sempre um dos primeiros a chegar. Sabia todos os pares de namorados, as paqueras, e fuxicava bastante alcovitando os casais. Queria ver o Zé Doidinho nervoso, uma arara mesmo? Não desse atenção a ele. Não gostava de ser ignorado, não aguentava isso. Ficava possesso de raiva. Não sabíamos se gostávamos ou ficávamos aborrecidos com tanta intromissão. No fundo gostávamos dele sim. Todos os dias, aquela criatura, orelhas de abano, pele avermelhada pelo sol, falando cuspindo em quem tivesse por perto, estava lá à nossa espera. Não víamos nele, sob nenhum aspecto, maldade alguma, apesar dele nos impor a sua presença cotidianamente. Ele estava sempre em nossa companhia, nas festas, nos jogos, indo e vindo do Murilo Braga. Quando se aborrecia com alguma coisa, sumia por um tempo, para reaparecer como se nada tivesse acontecido. Não era má pessoa, era às vezes chato, intrometido, mas tudo numa boa, de um modo divertido. Quando não aparecia, geralmente por estar doente ou cismado com alguma coisa, todos sentiam a sua falta e perguntavam por ele. Mais amigo das meninas que dos meninos, esses não tinham por parte dele, muita atenção. O seu interesse era as meninas, a sua vida era aquele ir e voltar pela praça Santa Cruz, em nossa companhia. Com as meninas ele conversava, fazia perguntas, num indo e vindo infinito. Às vezes ele nos acompanhava até o bar Simpatia do seu Bobó e alguém lhe pagava um picolé de côco(o melhor da cidade) e ele saía pulando de alegria e satisfeito pelo mimo e voltava para o colégio Murilo Braga à cata de novas turmas que eram liberadas. Aliás, ele não ia propriamente até a porta do colégio, o Zé ficava pelo SESP, ou na esquina do posto do Seu Álvaro ou mesmo na calçada da Praça da Bandeira. Do nada, como por encanto, um passe de mágica ele surgia na nossa frente. Agoniado, espoleta, elétrico, banguela, Zé Doidinho encarnava bem a célebre frase do General Médice: ame-o ou deixe-o. Inspirava-me nele os dois extremos da tênue linha que separa a realidade do sonho e da ilusão, que oscila entre o real e o imaginário. E o mundo é nu e cru. Torcedor ferrenho da Associação Olímpica de Itabaiana, ia a todos os jogos que o Tricolor jogasse fora de casa. Quando o Tremendão conquistava algum título, quem fosse chegando à cidade ficava esperando no Posto Serrano a chegando de toda a torcida e de lá partiam em carreata com buzinaço, e percorriam toda a cidade, que esperava acordada com bandeiras e aplausos, os campeões. A equipe vinha numa LK(carreta) da Transportadora Sergipana de propriedade do Sr. Wilson de Almeida Santana, que era nascido no Gandu e que também era primo do Zé Doidinho. E,de longe se avistava o Zé, junto com a equipe , em cima da carreta, comemorando. Esperto, inteligente, não era facilmente enganado. Era duro enganar o Zé Doidinho. Pressentia no ar o cheiro da trapaça. Ninguém conseguia despistá-lo. Sua alegria era contagiante. Naquela época nem se falava em educação especial. Os princípios de convivência pacífica com as outras pessoas, de socialização, a inclusão social ele aprendeu e conquistou sozinho. A sua escola foi as ruas, o convívio diário com os alunos do CEMB, que gostavam daquela pessoa que pedia atenção ,oferecia companhia à seu modo, e nunca fez maldade com ninguém, apesar de estar fora dos "padrões normais". Fica aqui registrada a singela homenagem, de uma geração inteira que o conheceu e conviveu com um ser humano mais singelo que os "normais" , que enquanto viveu ,soube distribuir alegria, simpatia e amizade. O que se passou no seu íntimo é uma icógnita. Como ele lidava com a sua cabeça confusa ,seus conflitos existenciais, se é que os tinha, ninguém nunca soube. No ano de 1978, em outubro, me disseram que o Zé Doidinho tinha partido, saído de cena,aos 35 anos de idade. Imaginem! Contaram-me que contrariado por uma pirraça que lhe fizeram, se entocou dentro de casa e de lá, só saiu no caixão! A concha se fechou para sempre!Quem o conheceu sabe que uma pérola se formou! Uma estrela a mais no céu! Sabe-se lá o que se passou pela sua cabeça! O certo é que ainda hoje ele povoa nossas lembranças...Ternas lembranças... Fotografia gentilmente cedida por Tereza Cristina Pinheiro. Zé Doidinho é o terceiro da esquerda, de camisa branca. Comemoração de final de ano do 3º ano científico.

2 comentários:

  1. Que linda homenagem, amiga! Lacrimejei, viu?! Que figura ímpar em nossas vidas! Nos tempos de 'Anos dourados' e nada como sua conclusão: "A concha se fechou para sempre!Quem o conheceu sabe que uma pérola se formou! Uma estrela a mais no céu! Sabe-se lá o que se passou pela sua cabeça! ... ". Anos depois dessa convivência afetuosa, ( sim, apesar de muitas meninas correrem dele, eu interagia com ele e por essa razão nunca fui assediada no 'tira lenço',,rs) me deparei no curso de Pedagogia estudando na disciplina 'Psicopatologia' o conteúdo 'educação especial' ele ficou na 'berlinda' de minha memória. Você acertou em cheio quando em sua crônica enfatizou que "Os princípios de convivência pacífica com as outras pessoas, de socialização, a inclusão social ele aprendeu e conquistou sozinho." Senti saudades dele lendo seus escritos, especificamente na frase: "O certo é que ainda hoje ele povoa nossas lembranças...Ternas lembranças..." Parabéns Maria Do Carmo Costa, pela linda crônica! Sentido e significado para quem viveu tais momentos!

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  2. Obrigada pelas palavras carinhosas minha amiga de sempre, Tereza Cristina, você não imagina o quanto significa para mim, o seu comentário! Sei que vindo de você, é verdadeiro.O nosso velho, querido amigo deve estar feliz.Obrigada..

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