segunda-feira, 10 de março de 2014

OS FOGUETÓRIOS DE ITABAIANA GRANDE (Crônica)

Publicada no Facebook , no grupo Itabaiana Grande,em 04/04/2012   Especialmente para Antonio Samarone e Antonio Francisco de Jesus-Saracura.

Estava meditando hoje, quando me veio a lembrança dos foguetórios que presenciei na minha infância e adolescência em Itabaiana Grande, Grande até nos foguetórios, que levavam um tempo enorme pipocando no céu, a depender é claro, de quem os patrocinava e do que estava sendo comemorado. Quem tivesse compromisso ou algum encontro que saísse antes ou esperasse acabar.
Decidi escrever algo, falando dessa minha recordação infantil,mas fiquei a imaginar: vou ter que tirar leite de pedras! O que se pode dizer ou comentar sobre foguetórios?É um tema tão insosso como assaz desinteressante! Mas decidi ir em frente.

Começo apelando para os da minha geração, que como eu, todos os domingos, frequentávamos a missa das oito horas da manhã.
A igreja matriz de Santo Antônio e Almas ficava abarrotada de crianças, que acordavam cedo, colocavam sua melhor roupa e iam para a igreja. Era uma festa! Eu passava a maior parte do tempo olhando o afresco acho  que de N. Sra da Conceição, aquela que tem muitas nuvens aos seus pés, pintada no teto por algum gênio. Olhava mais para cima do que para o altar. Achava lindo!.

Os que já tinham mais de sete anos e já tinham feito a Primeira Comunhão, confessavam antes, para poder comungar, "o corpo de Cristo", era o que o pároco falava e respondíamos gaguejando de nervoso, " amém", antes de colocar em nossa boca  a hóstia, não tinha esses modernismos de de hoje, de entregá-la nas nossas mãos.
Íamos, as meninas, com veuzinho de tule, arrematado nas bordas com um fino e delicado bico bordado,(Algumas tinham véus de renda! Eram lindos!). Tercinhos de prata, com pequenas bolinhas, que eu sabia rezar todo, agora não mais. E o livrinho do catecismo, com um anjinho na capa dura,com hinos de louvor a serem cantados durante a missa!

Após recebermos a hóstia, voltávamos contritos ao mesmo lugar que estávamos e, de joelhos, agradecíamos por tudo de bom que tínhamos, inclusive por estarmos ali! O engraçado acontecia antes, na fila do confessionário. Por várias vezes, passei a minha vez para outra criança ir na minha frente.
Mãos molhadas de suor,voz embargada, ansiedade, eu nunca sabia o que dizer, quando chegava a hora. Ficávamos conversando na fila, perguntando o que o outro ia dizer.

As crianças da nossa época eram doces( não estou dizendo que as de hoje não são,mas eram outros tempos), éramos obedientes aos pais, respeitávamos os mais velhos, os professores, no máximo uma briga de irmãos, um fuxico sobre um possível namoro de uma irmã mais velha, um banho no açude escondido da mãe, uma ida  a um sítio se empanturrar de umbu ou jaboticaba, ou um pé do sapato novo , perdido, preso nos galhos mais altos dos oitizeiros que ficavam do lado da igreja, na tentativa frustrada de colher aquele oiti enorme e amarelinho, que exalava um cheirinho bom!!! Dos bancos da igreja onde sentávamos dava para vê-los amarelinhos que nem canário belga!

Eu gaguejava tanto para dizer que pequei em pensamentos e omissões. Era o que me restava para confessar. Nunca respondi a meus pais, nem desrespeitei norma alguma, eu e todos da minha geração, vivíamos unidos, como verdadeiros irmãos, não cobiçavamos o que era do outro,muito menos pegar no que não nos pertencia.

Mas, hão de perguntar...e os foguetes? Cadê os foguetes? Não foi dito que a crônica seria sobre foguetes?
Uma tradição festiva e cultural de Itabaiana Grande! Povo alegre e festeiro!
Quando o padre dava a bênção final, nos apressávamos em ir logo para casa, antes que o foguetório começasse. Principalmente se fosse data festiva.
Nas trezenas de Santo Antônio, nem se fala, tinha alvorada festiva com foguetórios, quando a procissão saia da igreja tinha foguetório e quando depois de percorrer as principais ruas da cidade a procissão voltava à matris, aí é que era foguetório!
Confesso que morria de medo daquelas flechas, que após despejar suas cargas explosivas  nos céus, voltavam em obediência a Sir Isaac Newton, e a sua Lei da Gravidade.

Só que ele a elaborou à partir de uma maçã que lhe caiu na cabeça durante um descanço seu embaixo de uma macieira! Assim nos ensinaram! Agora entrar em contato com a gravidade com uma flecha de um foguete na cabeça!
Mas que nada, nunca ouvi falar em nenhum caso assim que tivesse acontecido. Elas(as flechas) caiam mesmo era nos telhados...
Era uma arte soltar foguetes, não era para qualquer um não!
Tinha toda uma técnica, senão ele mirrava, e era um perigo um foguete dando um voo rasante pelo público. De modos que, quem quizesse um foguetório , tinha que contratar o pacote completo,foguetes  mais o fogueteiro!

Existe até um ditado popular que se diz, de uma pessoa que se vangloria de algum feito.
Diz-se assim: "Fulano, soltou o foguete, e ele mesmo apanhou a flecha!"
Existem datas de grandes foguetórios em Itabaiana, as Trezenas de Santo Antônio, procissões, Itabaiana campeão no futebol, seleção brasileira na Copa, alguém ganhando as eleições, alguma data cívica, etc.

Mas o foguetório que me levou a escrever este texto, foi mesmo, o dominical, depois da missa das oito da manhã, que eu chegava em casa e meu pai estava fazendo a barba numa área que tinha nos fundos da casa, entre a cosinha e o quintal, ouvindo a rádio Cultura, e o Programa de Petrônio Gomes, se não me engano o nome era Rádio em Revista, com suas crônicas maravilhosas e a sua narrativa mais sensacional ainda!

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