sábado, 8 de março de 2014

OS BURROS INTELIGENTES DE ITABAIANA GRANDE (CRÔNICA)

Publicada no Facebook, no grupo Itabaiana Grande,em 07/03/2012

                                          OS Burros Inteligentes de Itabaiana Grande

Hoje por um momento, na hora do almoço, me veio à lembrança, na visão de quando eu era criança e tinha oito ou nove anos de idade. Comentando à mesa que a carne estava gostosa, eu, minha filha Talita, e Pedro meu marido.
Eu então disse: "Não  é nenhuma carne de Itabaiana (dando  uma grande ênfase no tom de voz),mas tá gostosa sim.
E lembrei-me, e comentei com a minha  filha, que ficou impressionada com o que lhe falei. Eu falei para ela, da visão que para mim era espetacular, que  eu tinha todas as sextas-feiras à noite, quando eu ia à casa do meu avô , Zequinha das Sete Porta. A casa dele foi uma das primeiras a serem construidas na av. Otoniel Dórea. Era uma casa enorme, de esquina, ampla, com varanda, garagem, piso alto, imponente, tinha um jardim de papoulas amarelas e uma cisterna tão grande e funda que dava medo só de olhar.

Até hoje eu fecho os olhos e memorizo essa casa todinha! Adorava passar os fins de semana lá. Nós íamos na sexta à noite e só voltávamos para casa no domingo à noite. Todo fim de semana era uma festa. Meu avô era seresteiro, tocava pistão num grupo e se apresentavam todas às sextas e  sábados na varanda de casa. Era música a noite inteira. Era bom demais, as brincadeiras de criança com meus primos, brincar de esconde-esconde, cipozinho queimado, pula-pula, numa cama que tinha num quarto de visitas...

Essa casa  fica do outro lado da rua, esquina com a que funciona hoje a FM Itabaiana, que na época era de D. Petrina mãe do político José Carlos Machado. Do lado esquerdo era nosso vizinho o Sr. José Martins. Descendo mais um pouco, morava o Sr.João Leite pai do José Hunald. Em frente, do outro lado da avenida moravam o Sr. Romeu fotógrafo pai de Reynolds e o Sr. Miguel Peixoto, pai do Dr. Airton Peixoto.

São lembranças de quase cinquenta anos, da minha infância, que hoje, durante o almoço,vieram à tona.
Era uma coisa que eu achava lindo!
Era da varanda desta casa, que eu via e me encantava, com aqueles burros inteligentes, que transportavam a carne de boi do matadouro municipal para o mercado, para ser vendida na feira do sábado
Vinham em fila indiana, com os lombos carregados de quartos de bois abatidos naquela mesma noite,há alguns minutos atrás!
Sem ninguém para tocá-los!
Vinham sozinhos! Fiquei sabendo hoje que quando chegavam ao mercado, os machantes sabiam de quem era a carne pelos nós das cordas, pela maneira como eles eram dados, ou por marcas ou sinais.Cada um tinha a sua marca diferente das outras.

Imaginem só vocês, jovens de hoje!
Nunca sumiu carne alguma!
Os burros passavam um a um, em passos lentos, se o da frente parasse, todos os outros que vinham atrás paravam.
E chegavam ao seu destino,com as cargas nos lombos!
Eu achava aquilo o máximo!
Aqueles burros inteligentes, descendo a av. Otoniel Dórea, até o mercado, carregados de fardos de carne de boi! Sozinhos! E voltavam para o matadouro depois que descarregavam suas cargas!
Sozinhos, na mesma fila indiana! E o que é mais incrível! Pelo outro lado da avenida, o que lhes dava mão para trafegar!

E eu esperava a próxima sexta-feira para vê-los passar novamente!
Agora imaginem isso hoje!
Será que eles chegariam ao seu destino, sãos e salvos?
E a carga será que chegaria completa?
Ou não chegaria coisa alguma ao mercado?

Se "perderiam" pelo caminho, no emaranhado de desonestidade, falta de caráter e roubalheira em que se transformou o mundo e os indivíduos.
Bons tempos aqueles vividos pela minha geração, onde os sentimentos que existiam eram amizade,confiança e respeito pelo que é do outro, e onde registro em cartório era tão somente a palavra empenhada.

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