quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Crônica Para o Meu Pai

                                                        Crônica Para o Meu Pai

Não sei porque sinto muita saudade de ti...pai. O seu jeito de ser, de agir, a sua calma, não me saem da lembrança. Tímido, introspectivo, pouco falante, herdei muito do senhor. Sou,dos seus três filhos, a que mais tem traços da sua personalidade.

Agente sanitário, naquela época mais conhecido como mata mosquito (da malária), nascido em Aquidabã, na zona rural, filho de agricultores, pobres, perdeu seu irmão gêmeo muito cedo, ainda criança. Foi criado em Aracaju, por uma irmã mais velha, na antiga rua de Laranjeiras. Sem infância, sem adolescência, talvez isso explicasse  sua mal disfarçada apatia  diante dos acontecimentos. Foi  bedel, o faz tudo, o menino de recados da antiga Associação  Atlética de Sergipe, clube social da rua Vila Cristina.

Não esqueço dos domingos pela manhã, quando eu chegava da missa e encontrava o senhor fazendo a barba, ouvindo a rádio Cultura, o programa de Petrônio Gomes e suas crônicas geniais!

Não esqueço que o senhor me chamava de " menina amarela da barriga verde", era o seu modo carinhoso de me tratar.

Não esqueço das várias vezes que me levou na garupa da sua bicicleta ao Estádio Etelvino Mendonça para assistir o Tremendão da Serra jogar e encantar a todos com a conquista do Campeonato Sergipano de 1969! Nós fomos ao jogo de entrega das faixas aos campeões desse campeonato! Eu tinha 11 anos.

Não esqueço, quando ia jogar damas na bodega de Zeca Pacavira,vizinho a Zelito das bicicletas, que depois foi proprietário da Onda, um brinquedo que tinha na feirinha de Natal. O tempo que o senhor passava jogando damas eu passava comendo os doces que Seu Zeca tinha  em frascos com tampa. Cocadas, marinholas, caramelos, pirulitos, chicletes, balas, drops, pastilhas, era um arsenal de doces que enchiam meus olhos! Eu adorava ir com o senhor na bodega do Seu Zeca Pacavira!

Não esqueço no dia do assassinato do Seu Manoel Teles, nós dois estávamos na bodega do Zeca, quando a notícia se espalhou como rastilho de pólvora e chegou até nós, imediatamente fomos para casa. A comoção era geral. Mas ao invés de tomarmos o caminho costumeiro que passaria pela porta de seu Manoel Teles, que morava na rua 13 de maio, vizinho ao Cine Popular, o senhor optou por vir pelo Largo Santo Antonio, a Praça da Feira, evitando assim o aglomerado de gente que se formou na porta do assassinado, que morreu sentado à porta de sua casa conversando com amigos, atingido por tiros disparados à queima roupa.Segundo contam, o assassino primeiro atravessou do bar Brasília para o Cine Popular, entrou no cinema e quando saiu já com a arma em punho, caminhou apenas alguns passos e executou sua vítima.
Quando chegamos em casa, minha mãe estava aflita, pois o pistoleiro depois de cometer o assassinato, veio correndo e subiu a rua General Siqueira atirando para o alto,ou seja, passou pela nossa porta, já que morávamos na esquina da 13 de maio com a General Siqueira.

Pai, adorava o seu jeito de não gostar de confusão, de ser avesso à brigas. Mas, gostava de tomar cavalinho, uma cachaça à base de essência de baunília, e aí, as brigas da minha mãe eram inevitáveis. Qual a mulher que gosta de ver o marido chegar bêbado, não é mesmo?

Pai eu o amava demais, para ter alguma mágoa do senhor!
Era o senhor que eu chamava no meio da noite quando acordava alagada de xixi. O senhor vinha com a costumeira calma, a paciência de uma mãe, tirava o cortinado, trocava toda a roupa de cama, deixava tudo sequinho, colocava pela segunda vez na noite o cortinado,pois quem arrumava a cama para eu dormir todos os dias era o senhor, me cobria e voltava para a sua cama para dormir. Nunca reclamou!

Pai, eu te amava tanto, que não sei como suportei a dor  de vesti-lo, morto, no Hospital São José, de madrugada, sozinha, colocá-lo no caixão e levá-lo para casa, para o velório.

Pai, eu te amava tanto,que não sei como suportei a dor de, dois anos depois, desenterrar o seu corpo, pegar a sua ossada no Cemitério São João Batista aqui em Aracaju e levá-lo para o Cemitério de Santo Antonio e Almas de Itabaiana, onde fiz questão  de eu mesma carregar o saco preto com os seus ossos, e eu mesma colocá-lo no jazigo da família.Hoje seus restos mortais descansam em terras ceboleiras, terra que não nasceu, mas viveu e criou sua família ou suas duas famílias.

Pai,na minha lembrança infantil, o senhor foi exemplo de mansidão, de não ofender a ninguem, nunca, com palavras grosseiras, talvez com omissão, mas perfeição não existe e, mesmo sabendo de todos os seus defeitos, você era o meu pai herói,  o meu referencial de paz, serenidade e de honradez de uma pessoa.
Ainda tenho em um quadro, na parede da minha sala, aquela foto, em preto  e branco,da minha formatura do primário com o senhor como paraninfo. Homem de poucas palavras, acho que carregava consigo, tristezas e dores de uma infância traumática e uma adolescência pouco vivida.

Chegou a Itabaiana em 1946, conheceu minha mãe, filha de um abastado comerciante, Zequinha das Sete Portas, casaram-se, e por ali o senhor ficou, sem maiores ambições, trabalhando com o sogro e aguentando todos os caprichos da filha dele. Da sua família só tenho lembrança de conhecer o tio José e um filho dele,que vez por outra apareciam em Itabaiana para nos visitar. Não conheci avô, avó, nem outros tios e tias, primos,ninguém, porque simplesmente o senhor os ignorava.

Não consegui sentir raiva nem quando por peraltice de criança, eu e o meu irmão, o seguimos uma noite quando saiu de casa e o vimos entrar na casa da rapariga, com quem teve duas filhas e as registrou, e por pura falta de imaginação, pôs o nome que já era meu , na mais nova das duas filhas fora do casamento. Duas filhas caçulas com o mesmo nome de Maria do Carmo!Pelo que fiquei sabendo mais recentemente a minha meia irmã homônima é freira num convento em Goiania
Sem apego a coisas materiais, sem nenhuma ambinção, sempre de bom humor, avesso à festas,esse era o meu pai.

Os problemas conjugais não me dizem respeito, nem tinha por que me intrometer. Como filha, só lembro do pai carinhoso e dedicado que era. Minha mãe se ausentava por grandes períodos, detalhe que nunca consegui superar. Não entendia o que tanto ela viajava e ficava fora, não importando que deixava uma menina de 8,9 anos, sozinha em casa, para fazer feira, cuidar da casa, das roupas e tudo mais que surgisse. Eu que lavava e passava minha farda, consertava alguma bainha que porventura descosturasse. Enfim, aos 12 anos, eu fazia a feira, cuidava do almoço,costurava minhas roupas e criava meu gatinho pintado.Acho que vem daí, o meu amor por felinos.Herdei do meu pai.

Acompanhei com muita dor, o seu sofrimento e a sua agonia pelos hospitais nos quais deu entrada.Sua última refeição foram duas colheres de suco de melancia que eu consegui que tomasse, a terceira, expulsou totalmente.Era uma sexta-feira, à tardinha.
Na madrugada do sábado o hospital ligou dizendo que o senhor havia falecido. Eu é que tomei todas as providências necessárias, com o coração partido,mas com o consolo de vê-lo parar de sofrer.

Te amo pai...para sempre!

São 3hs e 10 minutos da madrugada de 26 de agosto de 2013.
Acordei, escrevi numa única sequência e voltei a dormir.
                                                     Eu com 10 anos e meu pai na minha formatura do primário no Educandário Dom Bosco(Colégio das Freiras-1ª turma) em Itabaiana-SE.

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